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Ecos da Conferência Internacional de Humanização do PARTO/NASCIMENTO

Por: Maria Fernanda Seixas para o Correio Brasiliense

O melhor parto do mundo

 

Em casa ou no hospital, por via normal ou por cesárea,

parir um filho deve ser um momento livre de medos,

angústias e com a menor interferência possível



                                              Maria Fernanda Seixas

 

                                Muitos livros de obstetrícia se referem ao trabalho de parto de maneira peculiar: o útero é chamado de motor; o bebê, de objeto, e a vagina, de trajeto. Uma teoria que enxerga o nascimento de uma criança como um acontecimento mecânico, que deve obedecer a uma linha de montagem pré-estabelecida – seja ele um parto normal ou uma cesariana. É com essa base acadêmica que muitos obstetras, até os dias de hoje, se formam e ingressam no mercado de trabalho. Não faltam estudos ou pesquisas que comprovem a necessidade latente de repensar o momento do parto, nem empecilhos que impeçam uma mudança cultural em prol da chamada humanização do nascimento. Mas, se muitas mulheres e profissionais já entenderam o recado, a grande maioria continua à mercê do sistema, seja por falta de interesse ou de informação.

 

Mais e mais mães seguem tendo seus filhos com as mãos literalmente atadas às macas dos hospitais, algumas vezes dopadas, com os rostos encobertos por um pano e com a luz ofuscante da sala de cirurgia. Enquanto o médico lhe corta a carne, puxa papo com o pai que espera o nascimento do filho: “E essa rodada do brasileirão, como vai ser?”, como em um dos relatos ouvidos pela reportagem. Quantas mulheres não sentem a dor das contrações sem nenhum apoio emocional, instruídas a parirem deitadas e obrigadas a receber práticas médicas que há mais de 14 anos são desaconselhadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)? Da manobra de Cristelér (na qual se empurra com o antebraço a barriga da mãe no momento expulsivo do parto) às lavagens intestinais.

 “O modelo atual tem uma série de rotinas e procedimentos que são anti-humanizantes. Por exemplo: chega a uma maternidade uma grávida normal, saudável, em trabalho de parto espontâneo. A primeira coisa que a equipe faz é levá-la na cadeira de rodas, para uma sala isolada, longe da família”, observa o ginecologista e obstetra Marcos Leite, presidente da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento e consultor do Ministério da Saúde.

 

“Colocam um soro nessa mulher, deitam-na numa cama e a proíbem de comer ou beber qualquer coisa. São rotinas sem evidências científicas que as sustentem, e que produzem um dano muito grande à mulher”, continua.

 

Segundo o especialista, se a gestante chega ao hospital dessa forma, recebe a mensagem de que está doente, inválida e dependente daqueles profissionais. “Isso, do ponto de vista da assistência ao parto, é uma catástrofe, pois tira da mulher a capacidade de conceber o filho em plenas condições. Tira seu papel de protagonista e, muitas vezes, impede que o parto ocorra de forma saudável”, acredita.

 

Ao pensar no que passam diariamente tantas mães, é preciso considerar também o percurso da criança que chega ao mundo e a forma como nos acostumamos a recebê-la. “Na hora em que o bebê nasce, ele está completamente alerta. É uma página em branco. E o que acontece a partir daquele momento é o que vai ser impresso nele. Suas primeiras impressões do que é o mundo”, analisa a pesquisadora e médica sanitarista e

epidemiologista Daphne Rattner, da International Motherbaby Childbirth Organization.

 

Segundo Daphne, esse primeiro momento surge como uma ruptura, um sequestro. Em vez de ir para o colo materno, de reconhecer a mãe, de mamar e ser acalentado, o recém-nascido vai, mesmo que perfeitamente saudável, para as mãos de médicos e enfermeiros que farão uma série de intervenções. “Claramente, existe algo errado com esse sistema”, afirma a psicóloga e doula Clarissa Kahn.
A Revista ouviu médicos, doulas, mães, psicólogos e enfermeiras que explicaram a lenta, porém revolucionária, mudança desse primeiro momento da vida de um ser humano, com o resgate de práticas que remontam à própria origem da humanidade. Sem preconceitos e com franqueza, a busca pelo melhor parto do mundo, seja ele qual for, está apenas começando.


Menos mecânico, mais humano

 

A chamada humanização propõe uma mudança de paradigmas que transformaria um parto em um momento diferente do qual estamos acostumados. A regra é a redução das intervenções, o fim da pressa, o respeito absoluto ao momento que pertence aos pais e à criança. E isso não se restringe ao parto normal.

 

A cesariana também pode se tornar menos traumática, com o tempo livre para curtir carinhos com o filho imediatamente após o nascimento. Eles trocarão olhares e a mãe poderá oferecer o peito no momento ideal para primeira mamada, uma vez que é na hora do nascimento que o bebê tem o maior instinto de sucção. O cordão umbilical permanecerá intacto até que pare de pulsar, dando tempo para que a respiração se inicie com suavidade. O vérnix (aquela camada branca que cobre o bebê) não é tirado com esfregões, uma vez que é entendido o seu papel de proteção, de regulação da temperatura e de hidratação da pele. Ao longo dessa reportagem, veremos como esse movimento que prega a humanização do parto, qualquer que seja ele, tem alterado o momento do nascimento.

 

 

Normal, mas com assistência

 

Em grande parte dos hospitais, a mulher em trabalho de parto passa por uma série de intervenções desnecessárias e, muitas vezes, prejudiciais. Em 1996, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou um novo protocolo de recomendações Assistência ao parto normal: um guia prático, baseado em evidências científicas que classificam procedimentos comuns da assistência à gestante (ver quadro na página 29). O documento é ignorado pela maioria esmagadora das instituições brasileiras, que ainda usam intervenções vindas de uma antiga premissa da medicina: “Só é possível dizer que um parto é normal retrospectivamente”.

“Essa noção fez com que obstetras em muitos países concluíssem que a assistência durante o parto normal deveria ser similar à assistência ao parto complicado”, afirma o documento da OMS. Assim, transforma-se um evento fisiológico natural em um procedimento médico, “interferindo na liberdade da mulher de viver a experiência do nascimento de seus filhos a sua própria maneira”.

 

A proposta é um parto normal, sem intervenções -- entende-se por normal o parto espontâneo, no qual o bebê nasce em posição cefálica de vértice, entre a 37ª e a 42ª semana de gestação, com mãe e filho em boas condições. Assim ocorreu com a empresária Jaqueline Siciliano, 30 anos. A jovem preferiu ter o filho em casa. “Sempre quis ser mãe. E lembro que ouvia muitas histórias ruins sobre partos normais. Mas quando engravidei fui me informando, lendo muito, e não tive dúvidas de que essa era a melhor opção. Foi a melhor escolha que fiz na vida. O parto deixou de ser uma coisa assustadora e passou a ser algo natural, sublime”, conta.

 

O parto de Jaqueline foi guiado por seus próprios instintos. Aconteceu no closet do quarto do casal, na presença do marido, do médico – que observava –, da doula (profissional que auxilia na hora do parto) e de uma amiga. “Quem quer ter um parto normal deve procurar um profissional que se encaixe perfeitamente nesse perfil. Meu médico foi lá em casa antes do parto, conheceu a gente melhor, tomou suco e comeu bolo. É outra relação. Ele não interveio. Estava ali para uma emergência. Sem pressa. E isso foi muito especial. Pari meu filho sozinha, como deveria ser em todo parto saudável.”

 

A melhor parte, segundo ela, foi pegar a filha no colo, com o cordão umbilical pulsando e amamentá-la naquele exato momento, sentindo, com o marido, Felipe Siciliano, 29 anos, as sensações do primeiro momento do resto da vida da pequena Isabel, hoje com 11 meses.
Mas, para que a experiência alcance tal plenitude, é necessário criar condições favoráveis à gestante, permitindo o desencadeamento de uma série de complexas reações químicas únicas, diferentes das que ocorrem em um parto repleto de intervenções. “O cérebro da mulher grávida trabalha de uma forma diferente. O sistema límbico aumenta a atividade e o neocortex diminui. A assistência ao parto deve entender isso”, explica o obstetra Marcos Leite. Tudo o que ativa o neocortex deve ser evitado no momento do parto: barulho, medo, luz forte, falta de privacidade e dor. Funciona exatamente como na hora da relação sexual. “O orgasmo seria comparado ao momento do nascimento. É o sistema límbico que cria condições para ambos os momentos. Uma mulher conseguiria sentir um orgasmo em um lugar onde ela não se sente confortável?”, indaga o obstetra Marcos Leite.

 

Quando o neocortex é ativado por essas sensações negativas, libera a produção de adrenalina, que inibe a produção de ocitocina e endorfina – hormônios essenciais para um trabalho de parto tranquilo e saudável. Segundo estudos do obstetra e pesquisador francês Michel Odent, a ocitocina tem uma ligação direta com o sentimento de amor entre mãe e filho. Ela é produzida na hora do parto e no momento da amamentação. O obstetra francês vai muito além: em uma situação onde há a ruptura dessa ligação primordial, haverá uma deficiência dos hormônios apropriados, podendo deixar a criança suscetível ao uso de substâncias aditivas (drogas, álcool), ou mesmo a comportamentos compulsivos, mais tarde na vida, numa tentativa continuada de reequilíbrio do sistema de recompensa.

Cesárea sem traumas


A cesariana, que corresponde a 84% de todos os nascimentos realizados em hospitais privados no país, é fonte de polêmicas no Brasil e no mundo. De um lado está a mulher, que tem o direito de ter o filho da forma que achar mais conveniente, e o obstetra, que não vê problema em realizar cesáreas eletivas (pré-agendadas). Do outro está o fato de que o parto cirúrgico oferece mais riscos para a mãe e para o bebê.

 

Polêmicas à parte, a cesárea pode ser tratada também com as práticas de humanização. O neonatalogista Carlos Zaconeta descreve que isso já é feito, ainda que raramente: abaixa-se ao máximo o pano que encobre o rosto da mãe, para que ela possa ver o momento do nascimento do próprio filho. Diminui-se a intensidade da luz. O obstetra tira o bebê da barriga sem pressa, membro por membro, suavemente, estimulando o choro ainda durante a sua retirada para que ele consiga expelir o líquido dos pulmões naturalmente. O neonatologista observa a criança, que, se estiver saudável, vai diretamente para o colo da mãe, onde deve ficar por pelo menos 10 minutos, sendo amamentada e confortada.

 

“Na medida em que você vai fazer uma cesárea, pela motivação que for, você pode optar por uma forma minimamente invasiva. Coisa que em países de primeiro mundo é praxe há mais de 15 anos, e aqui não. A intenção é traumatizar e suturar menos tecidos, manipulando menos camadas no momento do corte. No fim da cirurgia, você sutura só quatro camadas, em vez de sete. Os riscos de sangramento e de lesão de artérias e de nervos é menor”, ressalta o obstetra e ginecologista Thomas Gollop, professor da faculdade de medicina de Jundiaí.

 

“Estudos mostram que dessa forma a mulher precisará de menos analgésicos, passará menos tempo internada e se recuperará mais rapidamente. Os custos para o hospital também diminuirão”, completa o obstetra, que trabalha com esse método há sete anos.

 

Mesmo com contornos humanizados, a cesárea não pode ser encarada como a melhor opção para o bebê – salvo em casos especiais, de real indicação médica. “Temos que ter cuidado com essa questão da cesariana humanizada, para que isso não vire um marketing médico e afaste ainda mais as mulheres da possibilidade de um parto normal. A cesariana é uma cirurgia, não é um parto”, argumenta o obstetra Marcos Leite. Como qualquer cirurgia, há uma série de riscos para a mãe e para o bebê. “Ela sangra mais, pode ter um órgão perfurado, machucar o bebê, pegar uma infecção. Fora que aumenta em quatro vezes os riscos de acretismo placentário (quando a placenta não descola) em uma futura gravidez. Também pode diminuir a fertilidade da mulher”, continua o médico.

 

A opinião, no entanto, não é unânime. “Acho legítimo uma mulher escolher o parto que quer ter, seja um parto normal ou uma cesariana. Não vejo problema nenhum em admitir essa posição”, defende Thomas Gollop.

 

A cultura da cesariana existe, e tem lá suas razões. Como muito partos normais são realizados em condições ruins para a mulher, o nascimento, que deveria ser tranquilo, torna-se sofrido e complicado, criando essa visão negativa nas mulheres e nos próprios médicos.

 

Também existem outros motivos, como o fato de que uma cesariana é muito mais simples e lucrativa para o profissional. Um obstetra, que prefere não se identificar, confidencia: “Um convênio paga ao médico, em média, R$ 600 reais por um parto. Muitos profissionais não se dispõem, por tão pouco, a ficar o dia inteiro e a madrugada inteira esperando o momento do nascimento. Preferem marcar as cesarianas eletivas todas para o domingo, por conta dos 30% extras que ganham por ser fim de semana. Passa em uma maternidade no domingo de manhã e veja a fila de grávidas no hall do hospital. É assim que funciona a indústria da cesárea.

 

A psicóloga Jassanã Batitucci, 32 anos, optou por um parto normal depois de muito estudo e preparação para vencer o medo. Porém, depois de dois dias e três noites em trabalho de parto e sem dilatação, foi encaminhada para uma cesariana. “Preferia ter tido minha filha normalmente. Mas minha cesárea foi um parto lindo, calmo. Pude tocar minha filha, cheirá-la. O importante é o bebê nascer com saúde”, analisa.

Com ou sem dor?

 

Um estudo realizado em 1994, pelo pesquisador sueco Ulla Waldenstrõm (Experience of childbirth in birth center care – A randomized controlled study), questionou diversas mães, dois meses depois do parto normal, sobre quais eram suas impressões em relação à dor sentida. Aparentemente, muitas encaravam a dor do parto sob uma perspectiva positiva, de realização - bem diferente da dor relacionada a uma doença ou traumatismo.

 

É exatamente assim que a psicóloga Isabela Crema descreve seu parto, feito em casa e dentro da banheira: “Foi um trabalho de parto muito intenso, mas absolutamente calmo, porque foi em casa, na presença do meu obstetra, da doula, do meu marido e de uma amiga. Quando a gente entrega o controle do parto para o nosso corpo, e desliga a mente, ele flui de uma forma muito natural. Claro que as contrações são muito fortes. Especialmente na fase expulsiva. Mas não tem como associá-la à palavra dor. A dor está ligada a algo negativo. O que eu sentia, por mais forte que fosse, estava ligado a um momento tão especial e mágico que não era assimilado como dor”.

 

O parto de seu filho aconteceu em uma madrugada, dentro de uma banheira inflável, com música ambiente e apenas as luzes do abajur acesas. “No dia seguinte, a vizinha veio nos cumprimentar. Ela ouviu uns grunhidos e achou que era um casal fazendo sexo, ou algo assim. Depois os gritos foram ficando mais intensos, até que ela ouviu o choro do bebê. Ela disse assim: ‘Eu gritei na hora que nasceu! Vocês ouviram meus gritos de alegria?’”, conta Luiz Carlos Pontual, 31, marido de Isabela e pai de Luan, hoje com 7 meses.

 

Já a jornalista Marina Simon, 28 anos, conseguiu ter o parto normal, mas precisou de analgesia para lidar com as contrações. O trabalho de parto começou em uma segunda-feira, com contrações leves e espaçadas. O nascimento só aconteceu na sexta-feira, depois de 14 horas de trabalho de parto ativo. Marina, apesar de disposta, foi anestesiada por conta de uma borda de colo que não dilatava. A dor das contrações cessou imediatamente, a borda foi manualmente dilatada e a pequena Maitê nasceu.


“Acho que depois da anestesia acabei perdendo o controle da situação e cheguei a me assustar. Por isso, a presença da doula foi fundamental. Dela e do Thomás (companheiro), que praticamente pariu junto comigo. Doeu muito, mas eu faria tudo de novo. Foi um rito de passagem para uma vida nova. De pai e mãe”, relata.

 

 

 

 


Última atualização: 07/12/2010

 

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